15.7.06

TOME, TOME, TOME!


Por excesso de bagagem, causando problemas de coluna e desvio de estrada, estou devolvendo umas tralhas que, por negligência, por paciência, impotência, insuficiência de consciência e outras congruências, andei pegando ao longo do caminho. Estou devolvendo o olhar triste, o coração pesado, o julgamento, os sonhos errados que se transformaram em pesadelos. Não quero também a bobice de aceitar tudo pra ser boazinha, a cara de santinha, as falas comedidas, as destrambelhadas... O que é demais é sobra, já dizia a minha mãe. Não quero mais as sobras, os restos, as doenças, os remédios, o tédio e o "tudo certo como dois e dois são cinco". Devolvo os rótulos, as definições que me amarram, os "afetos" que engessam, os melindres, os sutis venenos das conversas cotidianas. Estou entregando os produtos falsificados, os passados da validade, os de qualidade duvidável. Autenticidade é o antídoto pra tanta intoxicação acumulada na alma por todo esse tempo.
Por perceber que a vida é mais fácil pra quem carrega bagagens leves, pra quem leva o essencial, o que realmente é útil, estou me desfazendo de medos, preconceitos, verdadezinha metida a besta, frases feitas, alma desfeita, competições ferinas, neosaldinas e todas as "inas" para dores de cabeça. Não quero mais tanta cabeça, preciso de espaço para o coração. Estou tirando o excesso de razão, de arrogância, de complicação, pra ver se consigo ir mais longe, se consigo cansar menos e perder menos tempo pra arrumar bagulhos, pra trocar sapatos, pra afastar os ratos e baratas dos meus trapos.
Estou entregando o apego ao passageiro pra dar lugar ao que é eterno; tudo o que é áspero para viver o que é terno, tudo o que é amargo pra provar a doçura e a alegria de estar viva, de estar construindo-me sem tantos pesos, sem condições pré-estabelecidas. Deixo espaço para os imprevistos, o improvável, o fora de hora...Redireciono para todas as direções, reciclo em todas as dimensões e o meio ambiente agradece pela minha humilde contribuição.

Um comentário:

Rick disse...

tia, que oceano maravilhoso!
li os textos, amei todos eles, e me identifiquei muito com o Novo Olhar; tenho vivenciado muito isso, e às vezes ninguém entende minha falta de senso prático. gosto de usar os olhos de ver.