9.4.10

Perto de mim


Hoje amanheci sendo uma só. Não me senti fazendo parte de um contexto do qual deveria me sentir à vontade. Entrei no meu jardim, sentei no meu banco, contemplei a minha paisagem e não havia mais ninguém. Os seres em torno de mim, amores inestimáveis, não conseguiam pressentir a minha ausência. E eu, de onde estava, ouvia vozes distantes a me cobrar movimentos bruscos, atitudes prosaicas e coerentes. Lembrei-me de cenas de filme em que um aeroplano caía no meio de uma mata densa e o rádio perdia a possibilidade de comunicação. Uma voz exigia contato, mas do outro lado... nada! Como partilhar esse nível de solidão, ou melhor, solitude? Impossível! Apenas espero pacientemente a minha volta e busco na alma a capacidade de refazer as tramas, os laços, os fios da convivência real (ou irreal?) que o dia- a -dia exige. Cá do meu canto converso com essa que, tão necessariamente se apresenta a mim, a fim de que possamos nos fundir para não morrer nos fatos trágicos e repetitivos divulgados na TV, nos jornais, na internet... Conversarmos para que não percamos os vínculos, o sentido da busca, os sinais sagrados inseridos em coisas aparentemente tão comuns. Olho nos seus olhos pra perder um pouco das olheiras que ganhei e que me envelhecem o rosto; olho pra ganhar o sono tranqüilo que perdi e, principalmente pra não perder os sonhos que sonhei durante toda a vida. Sei que passaremos alguns dias juntas e que isso incomodará a convivência familiar. Essa que me habita é silente, é atemporal, mas é também impaciente com o que carece de encanto, de poesia. Tudo a machuca, tudo a faz recolher-se. Entretanto ela tem a missão de me fazer continuar sem me perder. Tem como meta me proteger do que não sou. Aponta-me os caminhos por onde devo ir, me exige o resgate de coisas que abandonei em atalhos de fugas. Olho meu jardim, as minhas flores, o cavalete com a minha tela branca... Ela me diz que é preciso estender esse jardim para o mundo visível; as minhas flores precisam ser vistas antes do anoitecer e a tela branca aguarda pelas minhas mãos trêmulas, inseguras, infantis. Ela me abraça e eu me aceito assim: incompleta, imperfeita, humana.

2 comentários:

Tânia regina Contreiras disse...

Tem como meta "me proteger do que não sou"... Fiquei aqui pensando na frase... Vou pensar mais, depois te digo...
A mulher da imagem é a imagem do momento de uma mulher: assim é a poesia...

Bjos

Silvana Nunes .'. disse...

Tem dias que amanhecemos mais reflexivos.
Você já leu o belíssimo conto "LA LOBA" ? Acho que é o momento de fazê-lo.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana para você.
saudações Educacionais !