21.4.10

Pequenas maravilhas do grande poeta!


O poeta que fala das pequenas coisas com tanta grandeza, porque descobriu em si mesmo o quanto elas guardam do sagrado. Nos seus pequenos segredos, a semente da vida pulsa e todas as coisas pequenas revelam o mundo rico e profundo que existe dentro de um ser.Reverências!

O Apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisa desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros


2 comentários:

Tânia regina Contreiras disse...

Salve, salve o grande poeta, que faz ouro das ignoranças! Estou eu uivando e dando boas vindas aos novos versos...

Beijos

Silvia disse...

Rita, vim conhecer teu blog e adorei. Esse texto é sensacional.
Obrigada pela visita ao meu blog.
Abraço